30 dezembro 2009

Memórias de um Diálogo Reincidente

– Por que você é cabeludo?

Porque sim, oras.

– “Porque sim” não é resposta.

E qual é o problema?

– Problema nenhum. Só acho estranho um cara com mais de trinta e cabelo comprido.

Mais de trinta? Você está dizendo que cabelo comprido é coisa de moleque?

– E não é?

E que eu, mantendo o cabelo comprido, estou tentando parecer que faço parte de uma faixa etária que já não pertenço mais?

– Ou isso ou...

O quê?

– Ah, você sabe. Esquece.

Bicha?

– Isso.

Não sou. Mas não expulsaria o Mick Jagger de minha cama.

– Hã?

Referência. Hair. Sabe? A peça, o filme. Achei adequado. Esquece.

– Não assisti.

Imaginei.

– Então por quê?

Eu não queria falar nisso, mas... Minha religião não permite.

– E qual é a sua religião?

Sou ateu.

– Besta.

Tenho o cabelo comprido porque gosto. Só isso. Gosto mais de me olhar no espelho cabeludo do que de outro jeito. Pelo mesmo motivo que você.

– Vaidade?

Também. Mas não só isso.

– Dá pra perceber.

Como é?

– Teu cabelo não é... Como posso dizer? Dos mais bem cuidados, né?

Cuido o suficiente.

– Há controvérsias.

Tá, cuido pouco. Cuido mais que a maioria. Uso shampoo específico, passo cremes, máscaras...

– Vai no cabeleireiro?

Vou. De vez em quando. Pra cortar as pontas.

– Já pensou em fazer escova progressiva?

Aí já é exagero. No máximo uma hidratação. Mas eu tenho mania de prender o cabelo molhado.

– Tá explicado o frizz...

Né? É um saco. Quando vou escolher um shampoo levo no mínimo meia hora. Tem que ser uma marca boa. Tem que ser do tipo específico do meu cabelo. Tenho que ler as instruções, e sempre que leio as instruções eles me induzem a comprar toda a “linha de tratamento”. E eu vou lá e compro a porcaria da linha de tratamento inteira. Shampoo, condicionador, creme para pentear, creme pra passar de duas a três vezes na semana, creme pra passar uma vez por semana. Silicone pras pontas. Pente de madeira. Elástico sem junção de latão pra não quebrar os fios. E mesmo assim fica essa nuvem ressecada sobre minha cabeça.

– É o preço da vaidade. Tudo bem. Entendi. Agora...

O quê?

– E essa barba?

Não quero falar sobre isso.

– Mas...

Deixa minha barba em paz!

12 novembro 2009

[Exercício Borgeano] A Baleia - Herman Melville

Caso fosse perguntado em seu leito de morte qual de suas obras tinha mais orgulho de ter criado, Herman Melville provavelmente não teria citado aquela que o levou à posteridade. Escritor propenso à aventuras (não só literárias), experimentou o sucesso com seus primeiros livros, Typee (1846) e Omoo (1847), inspirados em suas reais aventuras no mar, quando finalmente decidiu arriscar-se, suplantar a barreira do “autor de massas” e tornar-se um artista respeitado. Para essa empreitada ele inspirou-se em um trágico evento real: em 1820 o baleeiro Essex foi afundado por uma baleia no meio do oceano pacífico, vitimando dezesseis dos dezenove tripulantes da embarcação. Melville fez uma intensa pesquisa investigativa sobre o caso, chegando a entrevistar os sobreviventes pessoalmente. Assim surgia, em 1848, A Baleia, longa e minuciosa reportagem a respeito não apenas do incidente, mas dos torturantes dias que os marinheiros lutaram contra a natureza e a loucura enquanto navegavam a deriva pelo oceano, longe de quaisquer rotas ou esperanças de resgate.

Infelizmente dois fatores contribuíram muito para o fracasso editorial de A Baleia. Primeiro o tom folhetinesco com o qual Melville tratou a tragédia. Um dos sobreviventes, Thomas Nickerson, chegou a ameaçar processar o autor, mas o processo não avançou pois na mesma época Nickerson teve sua vida devastada com o descobrimento que ele e os outros dois remanescentes do afundamento do Essex recorreram ao canibalismo durante seus aflitivos dias à deriva. Pior: chegaram a realizar sorteios para decidir quem seria executado e servido aos restantes. O escândalo preocupou os editores de Melville, que recolheram a obra das livrarias poucos dias após seu lançamento.

Capa da única edição remanescente de "A Baleia",
atualmente exposta no Museu Herman Melville em ArrowHead

Desesperado, Melville percebeu que, de modo a conseguir aproveitar aquela história e, ao mesmo tempo, ser reconhecido como artista de respeito, deveria adaptá-la. Desconstruí-la como fato e reconstruí-la como alegoria. Precisava se afastar dos detalhes mais grotescos e aprofundar-se na alma dos personagens. Assim nasceram tanto Moby Dick, a baleia, quanto Ismael e Ahab. Do original sobrou apenas o fato de uma baleia ter afundado um navio. Até a raça da baleia ele mudou, trocando a cinzenta cachalote pela poética baleia branca. Em 1851 Moby Dick chegou às livrarias.

Mas Melville se precipitou. Lançou sua obra mais ambiciosa apenas três anos após o estouro do escândalo do canibalismo no Essex. Seu livro foi recebido com frieza tanto pelo público quanto pela crítica, o que o fez retornar de vez à literatura de aventura. Diferente de Ahab em seu derradeiro encontro com Moby Dick, Melville não deixou que sua criatura o arrastasse às fossas de uma obsessão.

Mas é em A Baleia que vemos um outro Herman Melville. Vemos lá um autor dando os primeiros passos em direção a uma maturidade artística. Maturidade essa que podemos comprovar, a despeito do fracasso em seu lançamento, em Moby Dick. Mas também vemos lá uma obra que, caso fosse lançada em outras circunstâncias, poderia retirar de Truman Capote o título de criador do estilo “romance não ficcional” com seu A Sangue Frio, lançado mais de cem anos depois.

Ironicamente, em 2001 o autor americano Nathaniel Philbrick lançou o livro No Coração do Mar, que narra a tragédia do Essex nos mínimos detalhes jornalísticos. A obra foi baseada nos diários do próprio Thomas Nickerson, que encontravam-se perdidos até 1980. Por este livro Nathaniel ganhou o National Book Award daquele ano.

Em seu leito de morte provavelmente Herman Melville não citaria nem A Baleia nem Moby Dick, o que é uma pena. Mas tudo bem. Caso A Baleia tivesse sido um sucesso em seu lançamento, provavelmente nunca conheceríamos Moby Dick, uma das obras mais influentes da literatura mundial.


Este texto foi escrito em resposta a um exercício baseado num trecho de Ficções, de Jorge Luís Borges, que disse: “Desvario laborioso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de explanar em quinhentas páginas uma ideia cuja exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que estes livros já existem e apresentar um resumo, um comentário”. Ou seja, o tal "livro perdido" de Melville não existe.

09 novembro 2009

Lançamentos, Palestras, Mesas Redondas e muito trabalho pela frente

Esse final de mês promete.

Pra quem estava reclamando que eu ando sumido (e ando mesmo), o último final de semana de novembro vai ser uma overdose. Abaixo os convites oficiais:

Mesa Redonda e Lançamento da Coleção Imaginários
Quando? Dia 28/11/2009 - Sábado - das 16 às 19hs
Onde? Liv. Cultura - Shop. Market Place


















Palestra e lançamento da antologia Folhas de Espantos
Quando? Dia 29/11/2009 - Domingo - a partir das 16hs
Onde? The Wall Café
















Divulguem, espalhem, compareçam, prestigiem. Quero ver todo mundo lá, hein?

17 outubro 2009

Coleção Imaginários e Folhas de Espantos

Sei que ando sumido daqui e não vou me desfiar em desculpas. É o de sempre: muito trabalho e pouco tempo. Para mim um dia perfeito teria 40 horas. Mas divago. Volto aqui para anunciar, com grande prazer, o lançamento de mais 3 coletâneas de literatura fantástica, sendo que duas delas contarão com a participação deste escritor cabeludo ausente aqui.

Primeiro, meu amigo Tibor Moricz mostrou em seu blog as capas das primeiras edições da coleção Imaginários, pela Editora Draco. O primeiro volume conta com a participação de Gerson Lodi-Ribeiro, Giulia Moon, Jorge Luiz Calife, Ana Lúcia Merege, Carlos Orsi, Flávio Medeiros, Roberto de Sousa Causo, Osíris Reis, Martha Argel, Davi M. Gonzales e Richard Diegues. A capa é essa aí abaixo:



Já o volume dois conta com João Barreiros, Saint-Clair Stockler, Jorge Candeias, Eric Novello, Sacha Ramos, Luís Filipe Silva, Tibor Moricz, André Carneiro e eu, Alexandre Heredia, com um improvável conto de ficção científica. Assim que tiver notícias relacionadas ao lançamento coloco aqui. Fique ligado. Abaixo a capa para seu deleite:



Já a editora Folha da Baixada me convidou para participar da antologia Folha de Espantos, focada em contos de terror. Nela, além de mais um conto inédito escrevo também o seu prefácio. Este livro contará, além da minha, com as participações de Albert B. Lemos e Mariana do Nascimento, Alexandre Atayde, Ana Carolina Giorgion (que também é a organizadora), Andréa F. Bertoldo, Celso Pereira, Eduardo Rodrigues, Fábio Oneas, Fábio Pietro, Fernanda Ferreira, Francis F. Pires, Georgette Silen, Geralda Aparecida, Igor Martins, Rafael Gomes, Walter Moreno e Willian Aparecido. Maiores informações sobre o lançamento em breve. Abaixo a capa:



Além disso, ainda há muitas novidades aparecendo bem em breve. Como podem ver, o sumiço é justificável. Fiquem ligados e garanto que não se arrependerão.

25 setembro 2009

Sumiços, Lançamentos e... Zumbis!

Eis que depois de meses de abstinência dou as caras de novo por aqui. É só chutar o lixo e soprar a poeira que fica tudo beleza. Se lavar deixa novo, dar um tapa deixa semi-novo. Ou quase.

As razões para o sumiço são muitas e nem vale a pena listar todas. Queria eu ter tempo para escrever um texto sobre a falta de tempo, mas divago. Estou vivo, estou bem e em breve estarei de volta.

Só apareci aqui para avisar que esse ano ainda saem duas antologias das quais vou participar enquanto o romance novo não fica pronto. Uma delas será uma coletânea de contos de terror de novos autores, que participo com um conto e com o prefácio (que eu preciso ainda escrever). A outra é uma antologia de - pausa dramática - ficção científica! Sim, meninos e meninas, seu segundo escritor cabeludo predileto (o Alan Moore ainda é hors concours) irá se aventurar em sendas inéditas até então. Ainda não tenho maiores informações, mas meu amigo Tibor Moricz já começou a divulgação homeopática. Para acompanhar, é só clicar aqui em cima.

Outra coisa: está chegando o ZombieWalk SP 2009! Sim, crianças. Será a terceira vez que vocês terão a oportunidade de me ver vestido de zumbi e gemendo "Miolos" em pleno Dia de Finados. Sim, dia 02/11. Marca na agendinha fuleira desse seu pré-pago cansado. Não sabe o que é a ZombieWalk? Então clica aqui e vem pirar o cabeção com a gente.

Ah, e quem quiser também pode me seguir no Twitter. Caso não lembrem, sou o @AleHeredia. Primeiro e único (por enquanto). Prazer.

Agora deixa eu sair daqui que tenho uma caralhada de coisas pra resolver.

Até mais.

P.S.: Sim, a referência no título foi intencional. Não enche o meu saco.

16 agosto 2009

Uma Questão de Perspectiva

Maria sempre foi um doce de pessoa. Linda e simpática, aos quatorze anos foi eleita por unanimidade Rainha da Primavera na escola, título que a levou a ingressar um uma bem sucedida carreira de modelo. Aos dezessete já havia ganhado mais dinheiro com sua estonteante beleza que seus pais durante toda a vida. Desfilou em Milão, Madri e para costureiros consagrados em Paris. Mas mesmo com todo o sucesso conseguiu manter a humildade e a simpatia que a tornaram tão famosa.

Mas a carreira de modelo teve vida curta e, aos 23 anos, arriscou-se no cinema. A nova carreira não lhe rendeu os frutos esperados, mas rendeu um casamento com um diretor de Hollywood, numa daquelas histórias típicas de contos de fadas. Casaram-se após um curto namoro, tamanha a intensidade da paixão que sentiam. Mudaram-se para uma portentosa mansão em Beverly Hills, onde conseguiam ficar longe da atenção exagerada dos paparazzi. Maria vivia um sonho encantado.

Mas certo dia a filha do primeiro casamento de seu marido foi expulsa do colégio interno que frequentava e então mudou-se para a casa de Maria, que se esforçou ao máximo para recebê-la bem. Surpreendeu-se com a beleza da menina, com seus cabelos negros como ébano, seu lábio vermelho como sangue e, sobretudo, com a pele, branca como a neve. Enxergou na menina um pouco de si própria. Numa conversa com o marido, pediu permissão para iniciá-la na vida de modelo.

Mal sabia ela que aquele seria o princípio de seu fim.

A menina, apesar de bela como uma antiga boneca de porcelana por fora, possuía um estofo repleto de maldade e de rebeldia adolescente. Por mais que a pobre Maria tentasse, não conseguia domar a jovem fera. Era frequentemente desrespeitada em público, vítima de birras, xiliques e de brincadeiras cruéis por parte da enteada. Mas tudo sempre longe das vistas do pai, que sempre a descrevia como um anjo sem asas que havia aterrisado em suas vidas. Maria evitou ao máximo contar sobre suas agruras para o marido, temendo ser mal compreendida. Ao invés disso tomou para si a missão de fazer a garota amá-la verdadeiramente.

Durante as produção de seu novo filme, o marido de Maria se ausentou, deixando-as sozinhas na casa. Maria viu nisso uma oportunidade para se relacionar com a enteada. Tentou ao máximo compreender o estranho gosto musical da menina, as manias e trejeitos. Tudo em vão. Quanto mais Maria se esforçava em busca do afeto da enteada, mais elas se afastavam.

Um dia a garota disse que gostaria de fazer compras na cidade. Maria se ofereceu para acompanhá-la, mas ela obviamente recusou. Como era menor de idade, não convinha deixá-la ir sozinha. Pediu que seu motorista, o fiel Hunter, a acompanhasse. Inquirida pelo motorista se haveria alguma ordem ou disciplina a ser seguida, ela respondeu com a sinceridade da maternidade frustrada: “Faça tudo o que ela pedir. Tudo o que desejo dela é seu coração”.

No final da tarde Hunter retornou. Sem a garota. Disse que ela o havia enganado e fugiu na multidão. Passou a tarde procurando-a, em vão. Em pânico Maria decidiu não alertar as autoridades, com medo que o escândalo na mídia assustasse o pai, que estava longe demais para ajudar. Ao invés disso ordenou que Hunter a procurasse onde quer que fosse. Conseguiram, após dias de buscas, descobrir que a garota havia fugido para um apartamento no bairro latino. Por alguma razão desconhecida ela havia se infiltrado numa incomum gangue de anões intitulados “The Diamond Diggers”.

De posse do endereço, Maria sabia que de nada adiantaria ela aparecer lá e simplesmente resgatá-la. A rebelde garota não voltaria para casa de livre e espontânea vontade. Com isso em mente ligou para sua maquiadora e pediu a ela que a disfarçasse o máximo possível. A maquiadora levou horas, mas conseguiu transformá-la numa autêntica velha. Também embebeu uma maçã, a fruta preferida da menina, em calmantes. Com ela entorpecida seria mais fácil trazê-la de volta para casa, onde poderiam lidar melhor com a crise familiar sem a interferência de estranhos. De posse da suculenta maçã e completamente irreconhecível com a maquiagem de velha, partiu em direção ao apartamento dos anões.

Foram necessárias algumas horas de vigília até que eles tivessem certeza que a garota estaria sozinha no apartamento. Quando o último dos anões saiu ela se dirigiu até a porta e tocou a campainha. Seu estômago se revirou quando viu a moça pelo vão da porta. “Quem é você?”, perguntou ela, petulante. “Sou a vizinha do andar de baixo”, respondeu Maria com o texto previamente planejado. “Percebi que você se mudou recentemente e é um costume do condomínio recepcionar novos moradores com um gesto de boas vindas”. “Que gesto?”, perguntou a garota, desconfiada. Maria estendeu a lustrosa maçã. A garota, com um ar enfastiado, pegou a fruta e mordeu, sem ao menos agradecer. Maria ficou observando quando a garota engasgou com o naco mordido e começou a se estrebuchar em pânico. Desesperada, Maria tentou ajudar, mas a garota caiu no chão, ainda se debatendo. Em pouco tempo desmaiou, incapaz de respirar. Maria sacou o celular e ligou para emergência. A ambulância chegou em poucos minutos. Viu quando a enteada foi atendida por um jovem e bonito paramédico, que conseguiu retirar o pedaço de maçã de sua garganta e a ressucitou com uma respiração boca a boca.

Neste meio tempo os anões retornaram e, não reconhecendo aquela velha estranha como vizinha ou como a madrasta de sua protegida, perseguiram-na. Maria tentou fugir, mas em seu desespero para chegar ao carro atravessou a rua sem olhar para os lados, sendo atropelada em cheio por um ônibus que passava.

No final das contas a garota acabou se envolvendo com o paramédico que salvara sua vida e nunca mais voltou para casa. Já a pobre Maria, incapaz de se defender das inevitáveis fofocas dos tablóides sensacionalistas, ficou para sempre conhecida como a cruel e invejosa madrasta que havia morrido logo após tentar sufocar a bela enteada.

Pobre Maria.

30 julho 2009

Arrebatamento


Asneiras!, gritava o decano com sua voz rouca de maços e maços, sempre que recebia mais um elogio. Bajulações estapafúrdias!, guinchava, sacudindo de leve sua bengala. Todos sorriam de sua modéstia agressiva. Ele tinha crédito. Ele tinha aval. Ele havia escrito "A Penumbra Outonal". Ele havia chegado na perfeição absoluta do uso da língua. Não só isso. A associação de idéias revolucionárias entre si. A fluidez da trama ágil e ao mesmo tempo detalhada. Tudo sem exageros. Sem devaneios. Tudo perfeito. Uma obra a ser analizada por gerações e gerações.

Os poucos que o liam antes de "A Penumbra Outonal" diziam que seus textos eram bons. Bem razoáveis até. Mas ninguém nunca entendeu como de repente uma obra tão maiúscula havia surgido de um escritor tão... medíocre. Havia potencial, claro. Mas também havia obsessão. Havia uma paixão que ardia tanto que transformava o ato da criação em um parto explosivo. Mas sempre insatisfatório. Sempre autocrítico. Estava bom mas... Algo faltava. Naquela época ele ainda aceitava os elogios. Dizia que o incentivavam, mas era apenas a educação mascarando a frustração crescente. Ele podia mais que aquilo. Sabia que podia.

E então surgiu. No átimo final da crise de desespero. Em uma entrevista após o lançamento ele declarou que tinha sido algo semelhante a "um tapa de uma divindade qualquer em minha face, retirando todas as dúvidas e me mostrando o caminho". Se arrependeu por anos por essa afirmação, vendo ela sendo deturpada para fins fora do contexto original. Mas colheu em vida os louros do sucesso, coisa rara no meio artístico. Desfrutou da fama e dos prazeres por ela propiciados. Por meses a fio não escreveu uma linha sequer. Ele já podia morrer. Tinha escrito sua obraprima.

Mas não morreu. E com o tempo o vinho perdeu o sabor e o sexo se tornou um monótono clichê. E ele decidiu que era hora de voltar a escrever. E escreveu sem parar. Contos, novelas, romances. E foi sempre muito elogiado por todos seus trabalhos posteriores. Seus livros sempre vinham com "Do autor de 'A Penumbra Outonal'" em cima do título. E sempre vendiam muito.

Mas mesmo com o sucesso a amargura cresceu. A autocrítica ainda estava lá, firme e forte. Ele havia superado seus limites. Elevou a barra num patamar tão alto que não tinha mais como alcançá-la. "Eu poderia escrever sobre galinhas d'angola gagas por quatrocentas páginas e as pessoas ainda comprariam e elogiariam", reclamou ele em uma entrevista recente. E a platéia riu. Riu de sua desgraça. Riu de seu desespero.

Quando foi encontrado estava debruçado em sua escrivaninha, como que dormindo. A expressão não era da costumeira paz cadavérica, mas dura e pesada, como se ele tivesse finalmente sucumbido ao cansaço de aguardar pelo retorno daquele divino tapa que ele nunca mais levou.

27 julho 2009

Entrevista no Tudo Tem História

"Meus textos, mesmo às vezes tocando em temas considerados pouco palatáveis, ainda assim mantém o leitor interessado e dentro da história. Estamos lidando hoje em dia com leitores ávidos, mas com diversas opções distratoras a toda volta. Manter o leitor preso ao seu texto é um grande desafio. Tem que saber pesar as descrições. Se você acha meu texto bem descritivo, precisa ver as primeiras versões deles. São leituras, releituras, cortes e adaptações infindáveis antes de chegar no ponto que considero que as descrições estejam bem balanceadas e sem prejudicar o andamento da trama."

Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre mim e sobre meu trabalho, cedi uma longa e deliciosa entrevista à querida amiga Gi Marques em seu blog, o Tudo tem História. Lá falo sobre criação, literatura, meus livros, como pegar mulher sendo escritor e até, pasmem, vampiros! Separem um tempinho e deem uma passadinha lá. Ah, e leia as outras entrevistas também, muito interessantes.

16 junho 2009

2° Ciclo Paulista de Debates sobre Literatura Fantástica / Terror


A OPELF (Oficina de Produção e Estudos de Literatura Fantástica) e a Livraria Cultura convidam ao 2º Ciclo Paulista de Literatura Fantástica.
Na edição de 2009 teremos diversas atrações preparadas especialmente para os fãs da literatura fantástica e mês a mês, uma mesa-redonda explorando os subgêneros de Ficção Científica, Fantasia e Terror, com sorteios, lançamentos de livros, novidades e workshops.
O Ciclo finaliza no sábado, 20 de junho.
As atividades começam às 11h00, na unidade Bourbon Shopping Pompéia, confira abaixo a programação:
11h00 + Workshop – Como escrever? O livro desde a idéia até o ponto final
Neste workshop, a lingüísta e crítica literária USP, Janaina Azevedo Corral, apresenta um curso para escritores e autores iniciantes interessados no processo que ocorre desde o momento de criação da idéia até manuscrito final.
17h00 + Mesa-Redonda de Literatura de Terror
Neste ano a mesa-redonda terá a mediação da OPELF, representada por Janaina Azevedo Corral.
+ André Vianco + um dos maiores best-sellers do brasil e o maior escritor de literatura fantástica atual. Com mais de 10 livros publicados, continua a explorar sua obra em diversas mídias, acesse o website para mais informação, Andre Vianco Net.
+ Alexandre Heredia + autor de O Legado de Bathory e Predadores, este escritor foge dos padrões e tendências. Participou de diversas antologias e posta seus causos irreverentes e alguns contos em seu blog.
+ Martha Argel + autora e pesquisadora muito conhecida entre os fãs. Com livros como Relações de Sangue e O Vampiro Antes de Drácula, tem participado ativamente do cenário de literatura fantástica nacional. Acompanhe a escritora através do seu website.
+ Nelson Magrini + reconhecido escritor de terror. Seus livros Anjo: A Face do Mal e Relâmpagos de Sangue, foram seguidos por diversas participações em antologias e através da web. Escritor ativo e conceituado no cenário nacional de escritores de terror. Acompanhe o seu novo sucesso pela web, O Portador da Luz.
Além do debate com os participantes da mesa e as perguntas do público, o evento terá atrações multimídias que visam divulgar a produção nacional e debater sobre a literatura de terror.

08 junho 2009

Crítica: Bathory (2008)

Finalmente consegui assistir ao filme Bathory, que citei neste post aqui. Sim, aquele que se propõe a ser uma verdadeira "cine-biografia" da famigerada condessa Erszebet Bathory, que separaria o mito da verdade e contaria o que realmente se passou nas terras altas da Hungria no final do século XVI e início do XVII.

Pois bem. E o diretor eslovaco Juraj Jakubisko conseguiu o que inicialmente havia proposto? A resposta é, infelizmente, "em partes". Mas, claro, me adianto.

Em termos biográficos o filme é fiel o suficiente quando trata da história da condessa em si. As passagens históricas conhecidas estão todas lá, sem floreios. O noivado, o casamento, a vida, o julgamento e a morte estão fielmente retratados (com uma atuação surpreendente, apesar de alguns tropeços, de Anna Friel), utilizando poucas licenças poéticas, como no caso da morte que, apesar de inacurada, criou uma metáfora visual bem interessante. Foi usado como base para o argumento a trama de difamação perpretada pela nobreza húngara em conluio com a Igreja Católica que, mesmo interessante, tem poucas evidências factuais. Mesmo assim é uma proposta corajosa do diretor que merece, se não aplausos, ao menos respeito. A tentação de deixar a história cair para a caricatura era grande demais, visto o impacto cultural da condessa Bathory nos dias atuais. Ponto para o filme.

Aliás, outros pontos a favor do filme são a fotografia e a produção de arte. Em momento algum a obra perde o clima certo da época retratada, e o tom de "épico histórico" é presente em grande parte da película (mesmo nos momentos onde vemos uma influência gigantesca de Peter Jackson e seu O Senhor dos Anéis, mas nada que comprometa). Os figurinos estão belíssimos e condizentes. Percebe-se uma preocupação bastante grande com a fidelidade até mesmo nos apetrechos utilizados.

Agora nem tudo são flores. O filme peca em alguns pontos importantes. O mais gritante numa primeira vista são os personagens do monge Peter e seu noviço Cyril, sendo o primeiro o narrador da história. Completamente fictícios, foram um artifício do roteirista (que também é o diretor) criados meramente para "explicar" a propagação de certos momentos históricos até o tempo atual. Esquemáticos e desnecessários, apenas servem para tentar prover um alívio cômico numa trama que, sinceramente, não necessitava deste recurso. Protagonista de inconvenientes cenas "cômicas", onde vemos os dois testando inventos produzidos pelo padre, os personagens servem apenas para quebrar o ritmo com piadinhas rasteiras, em nada colaborando com o enriquecimento da história. Muito pelo contrário, pois em certos momentos não sabemos de que lado estão os religiosos (são espiões do cardeal, mas ajudam a condessa em diversas ocasiões chave). Fora o irritante fato do noviço ter a mania de "uivar" toda vez que vê um seio nu, em cenas que me lembraram muito uma pornochanchada, o que conta muito contra a seriedade deste projeto.

Pecando por um ritmo um pouco episódico demais, vemos personagens que deveriam ter um peso maior na história tendo papéis de "figurantes com nomes", como nos casos de Fizcko (um mero capataz mudo até o terceiro ato, quando de repente ele se torna um "cúmplice" importante) e Dorota Sentes. Quando testemunhamos eles sendo torturados, pouco nos importamos com seus destinos, visto que até aquele momento simplesmente não conhecíamos os personagens, o que é uma pena.

Outra inclusão completamente fictícia é a do pintor milanês Michaelangelo Merisi Caravaggio como amante da condessa. Mas esta inclusão se mostrou acertada, ao menos em termos narrativos, pois exemplifica de maneira bastante lírica a obsessão da condessa Bathory pela própria imagem e juventude. Mas nada na biografia do pintor ou da condessa leva a crer que esta história não seja totalmente inventada. Confesso que não compreendi a necessidade de usar um pintor famoso para este papel (qualquer retratista serviria) mas o resultado final não compromete.


De interessante na obra podemos tirar a "explicação" pelas crises assassinas da condessa (uma "doença no sangue" que me deixou bastante feliz, pois pareceu que o diretor/roteirista leu meu livro) e o respeito com que alguns personagens históricos foram retratados (especialmente Ferenc Nadasdy e o rei Mathias d'Habsburgo). Já a "vilanização" do conde Gyorgy Thurzo surge artificial e despropositada.

Não é um filmão nem uma obra de arte absoluta, mas é um filme que merece uma espiada, nem que seja apenas por curiosidade. É uma obra irregular, sim, mas que tem seu mérito. Só espero algum dia pegar uma cópia decente (a minha é um scan de uma exibição especial do filme para a STV eslovaca, dublada em eslovaco) de modo a avaliar melhor as atuações. Mas fica a dica para quem está curioso por conhecer um pouco mais da vida dessa personagem tão interessante.

19 maio 2009

Conectados

A grande amiga e colega-em-letras Camila Fernandes mandou-me a mensagem abaixo, que eu reproduzo na íntegra pois adorei a ideia (sem acento agudo que sou mudérrnu), e ninguém melhor que um dos autores a explicasse para vocês:



Pessoal,

Há algum tempo dei uma mãozinha ao modelador e animador 3D David Hoffmann num curta-metragem de animação feito no programa Blender. O resultado disso foram 2 minutos de filme, um final em aberto e um blog no qual as pessoas podem assistir ao que foi feito, opinar e... participar do filme! Transcrevo abaixo a proposta do David:

"Conectados é um projeto de animação feito no Blender por David Hoffmann e Camila Fernandes.
A idéia era fazer um curta animado de uns 4 minutos de duração, mas com a falta de tempo para produzi-lo nós resolvemos fazer só a metade. A proposta agora é deixar que outras pessoas produzam o final. Que pessoas? Modeladores e animadores que topem a parada.
Este projeto segue a mesma linha do software Blender, onde todos que quiserem contribuir, podem ajudar. É um projeto sem fins lucrativos, ok?
O negócio é praticar e se divertir.
Em breve eu irei disponibilizar os modelos em 3d para download."

Apenas para esclarecer, tudo o que fiz foi ajudar um pouco no roteiro, criar as texturas dos personagens e meter o bedelho no design dos mesmos, mais na base do pitaco do que qualquer outra coisa. Modelagem, animação, direção, é tudo trabalho do Hoffmann.

Assistam ao filme!


Visitem o blog!
http://connected-animation.blogspot.com

E, se possível, ajudem a divulgar para que essa produção possa ter o final que merece. :-)



É isso aí. Se alguém quiser uma força no roteiro, estamos nessa!

12 maio 2009

[LANÇAMENTO] Paradigmas - Volume 2


Clica para aumentar

É isso aí, galera. Mais um lançamento da Tarja Editorial. É nessa sexta. Eu estarei lá, para prestigiar meus amigos e adquirir o meu exemplar.

Vejo vocês lá!

06 maio 2009

Último Episódio de 'Família Dinossauro'

Confesso que nunca fui grande fã desta série. Achava-a simpática e até bem bolada, mas chegou uma hora que eu não aguentava mais aquele Baby Sauro invadindo todas as mídias e até conversas com seus bordões gritados por alguma dubladora irritante ("Não é a mamãe!", lembra?).

Mas depois de assistir a esse final eu repensei tudo que eu tinha imaginado a respeito da série. Vejam (está com legendas em inglês, pois não encontrei em português):



Pra quem não saca inglês, um resumão: Dino constói uma fábrica de frutas de cera em cima da área de acasalamento de uns besouros. Isso causa um desastre ecológico que desencadeia a era do gelo. A cena mostra Dino tentando se justificar e pedindo perdão à família, já que todo o planeta está condenado. O momento que ele explica para Baby é de cortar o coração. E ele ainda termina com uma pitada de humor negro (tão característico da série):

"Tenho certeza de que tudo ficará bem. Afinal, os dinossauros estão na Terra há 150 milhões de anos. E não vamos de repente... desaparecer."

Câmera se afasta lentamente, saindo da casa e mostrando o logotipo da fábrica que acabou com o mundo. Fade out.

Fade in. O apresentador anuncia a previsão do tempo. Mais neve. Mais frio. Mais escuro. Aqui é Howard Hamdupme. Boa noite. E adeus.

Puta merda!

Passei a respeitar mais a série. Que final corajoso! Especialmente para um programa infantil. Danem-se as crianças traumatizadas! Queremos mais assassinatos de mães de Bambis! Mais mortes de pais de Simbas!

Mais coragem para saber como terminar uma história.

30 abril 2009

Os Zumbis e a Originalidade

Assista ao curta abaixo ANTES de ler minha análise a seguir.



Eu sempre que posso bato na tecla da originalidade na hora da criação, mas o que eu menos vejo por aí são idéias originais sendo realizadas. No máximo um fiapo de idéia original que logo é inundada por uma torrente de clichês e lugares comuns. No final tudo pode ser colocado no mesmo balaio e pronto.

Muitos de meus textos já publicados tem uma aceitação bastante dúbia. Tem gente que adora. Tem gente que odeia. Normalmente quem odeia faz parte do famigerado fandom da literatura fantástica. Gente que coloca Star Wars, Star Trek, Harry Potter, Senhor dos Anéis, Crepúsculo ou qualquer porcaria escrita por Stephen King ou Anne Rice como as Tábuas da Lei da literatura mundial. Foram estas pessoas que descartaram meus contos na série Necrópole como "traidores", "pretensiosos demais" e daí pra baixo.

A questão que sempre bato é: se for pra reescrever a história dos outros, prefiro economizar meu verbo e simplesmente lê-los. Um papagaio tagarela não é mais do que uma curiosidade pitoresca. Ou você conhece algum papagaio orador famoso?

O vídeo aí acima é um exemplo claro do que quero dizer. Com certeza os espectadores desatentos vão logo taxá-lo como uma história "de zumbis" e rotulá-lo como uma história de terror simplesmente por conta disso. É uma história de terror, sim, mas não APENAS pelo fato de haver ali um zumbi. O terror existe, só que está nas entrelinhas. Mas me adianto.

Vamos analisar a estrutura básica de uma "história de zumbis": normalmente começa com um acidente ou falha catastrófica que causa uma epidemia de zumbis. Os sobreviventes rapidamente se juntam em grupos armados e tentam desesperadamente resistir à horda sempre crescente dos famintos mortos vivos, passando por situações dramáticas e sendo obrigados a tomar decisões difíceis a respeito de vida e morte até que apenas um (ou nenhum) dos sobreviventes... bem, sobreviva. Todos já vimos histórias assim, tanto na literatura quanto nos cinemas e até em games. É o formato comum.

Agora vejamos a estrutura do curta acima. Vemos um grupo de garotos se reunindo displicentemente em uma cidade em ruínas. Leva algum tempo para descobrirmos que os garotos aprisionaram um zumbi e estão se divertindo torturando-o. O núcleo narrativo é um garoto que, ignorando a macabra "brincadeira" dos parceiros, mostra estar apaixonado por uma garota brava e pouco receptiva. A infecção já aconteceu. Não é o centro da história. Percebemos DEPOIS que tanto o garoto quanto a garota tem motivos para agirem daquele jeito pouco sociável. Rapidamente a antipatia inicial que poderia ter surgido se converte em piedade e empatia. Especialmente em dois momentos. Primeiro no diálogo:

Garota: Você não tem outro lugar pra ficar? Com sua família ou algo parecido?
Garoto: Não. Eles se foram. Estão todos mortos.

Depois, mais ao final, quando a garota perde as estribeiras e grita com os garotos que torturavam o zumbi:

Garota: Que PORRA vocês estão fazendo?
Garoto: O que você acha? Estou me livrando dessa porcaria de zumbi.
Garota: Essa porcaria de zumbi é a porcaria do meu pai!

Pronto. O cenário está construido. Descobrimos neste momento que não estamos em uma típica história de zumbis. Estamos testemunhando uma outra visão da mesma história. Um drama familiar pesado, que usa os zumbis apenas como alegoria para uma história muito mais profunda, cujo tema essencialmente não é o fato de ter zumbis, mas o AMOR. O amor de uma filha que se recusa a aceitar a condição do pai. Que se vê obrigada a se entregar ao sacrifício pessoal em nome deste amor. Mas não só esse tipo de amor. Vemos, através da atuação surpreendente econômica do protagonista, um amor que nasce de um terreno quase estéril. Um amor que surge da empatia da dor do casal. Uma história com zumbis mas que fala essencialmente de amor e da esperança que este amor representa.

ISSO é originalidade. Perceba que o autor em momento algum se preocupou em explicar as causas da infestação de zumbis ou em criar situações típicas destes casos. Qualquer explicação apenas diluiria o impacto da resolução do núcleo dramático. O que importam não são os zumbis. São os personagens e suas mudanças no cenário montado. No momento que a garota se vê obrigada a acabar com o suplício do pai nós compartilhamos de sua dor. E nos entristecemos com a MORTE DE UM ZUMBI. É mais ou menos como se George A. Romero tivesse filmado uma adaptação de "O Senhor das Moscas".

Agora me diga: quantas histórias de zumbi desse jeito você já viu ou leu antes?

O que essa galera do fandom tem que compreender é simples: tradição olha para o passado, mas traição olha para o futuro. Trair as tais "Tábuas de Lei" da criação não é só algo que deveria ser o objetivo de todo artista. Deve ser a obrigação! O que foi criado antes deve ser aprendido e apreciado, mas não copiado. Não é porque eu gosto de determinada obra que vou ter que escrever outra igualzinha, mudando apenas os detalhes para mascarar meu plágio. Eu vou transformá-la, deturpá-la. Evoluir o conceito se possível. Criar alguma coisa que nunca foi criada antes, mesmo que para tanto eu use as bases já consolidadas antes de mim. Mas nunca me acomodar em um estilo ou forma só porque já deu certo antes.

Esta é a postura que todo artista deve ter caso pretenda algum dia ser reconhecido como um.

29 abril 2009

Crônica de uma Larica Reativa

(Transcrição tão fiel quanto minha memória permite)

- Bem vindo aos Amigos da Madrugada do Delivery Habib's - Você Feliz! - Boa noite. Com quem eu falo?

- Hum, Alexandre...

- Boa noite, Sr. Alexandre. Em que posso ajudá-lo?

- Eu queria fazer um pedido...

- O endereço de entrega é na rua blablabla número tal, casa? Próximo à avenida nhemnhemnhem?

- Sim, é isso mesmo.

- Qual o pedido?

- Eu queria dois Double Habib's...

- Dois combinados com batata frita e suco?

- Não, não. Só os lanches mesmo...

- Ok. Mais alguma coisa?

- Mais dez esfihas de espinafre e...

- Dez esfihas de espinafre. Espera. Hum, Sr. Alexandre, sinto muito. Estamos em falta de esfihas de espinafre. Gostaria de alguma outra coisa no lugar?

- Em falta? Droga. Então troca por dez esfihas de quei... Não, quero dizer, de carne.

- Dez esfihas de carne e dez esfihas de queijo?

- Não! Só dez esfihas de carne.

- Ok. Mais alguma coisa?

- Eu queria também aquela promoção pague 5 e leve 6 dos pasteizinhos de belém...

- Que tal se eu oferecesse para você a promoção pague 10 e leve 12? Serão mais pasteizinhos de sobremesa e você ainda leva dois de graça! Que tal, hein?

- Tá, pode ser...

- Ok. Mais alguma coisa?

- Uma coca dois litros...

- Só uma coca? Com tudo isso garanto que uma coca só é pouco. Que tal se eu mandasse duas cocas dois litros?

- Tá, tudo bem...

- Duas cocas dois litros então. Ok. Mais alguma coisa?

- Não, é só isso...

- Sr. Alexandre, eu já percebi que o senhor é um apreciador de sobremesas. Por essa razão vou lhe oferecer uma deliciosa promoção. Quantas pessoas irão se alimentar hoje?

- Hã? Ah, duas...

- Perfeito! Tenho aqui uma promoção deliciosa especialmente para você. Vou incluir em seu pedido quatro deliciosos brigadeiros. O senhor já provou nossos deliciosos brigadeiros?

- Já...

- Então o senhor sabe exatamente como eles são deliciosos, não é verdade? Quatro brigadeiros dão dois brigadeiros para cada um, com a vantagem que se você não os quiser comer agora pode guardá-los por mais 24 horas sem problemas. Seria uma ótima sobremesa para o almoço de amanhã, ou um delicioso complemento para o seu café da manhã. Que tal? Gostou da idéia? Com os brigadeiros sua conta fica em R$ 62,40, incluída a taxa de entrega...

- Não, não. Sem brigadeiro...

- Então vamos fazer assim: Como eu tenho certeza que o senhor é um grande apreciador de boas sobremesas, que tal levar dois brigadeiros no lugar de quatro? Quem recusa um brigadeiro, não é verdade Sr. Alexandre? O senhor sabe o quanto eles são deliciosos. Com dois brigadeiros sua conta sairá apenas R$ 59,60. Posso incluir em seu pedido?

- Tá, tá! Pode incluir o brigadeiro.

- Ok. Qual seria a forma de pagamento?

- Dinheiro...

- Precisa de troco?

- Troco? Não, não precisa...

- Confirmando o pedido. Serão dois Double Habibs só os lanches, dez esfihas de carne, uma promoção pague 10 e leve doze do pastelzinho de belém, duas cocas dois litros e mais dois deliciosos brigadeiros. Tem certeza que não quer mesmo levar quatro brigadeiros?

- Tenho!

- Ok. O total é de R$ 59,60 a ser pago em dinheiro. Sem troco. Pedido a ser entregue na rua blablabla, número tal, casa, próximo à avenida nhemnhemnhem. Tem algum outro ponto de referência?

- Que tal o Habib's, que é a uma quadra daqui e que levaria muito menos tempo e ficaria muito mais barato se eu fosse até lá e pedisse pra viagem do que ficar a noite inteira conversando com um atendente tagarela?

- Ok, senhor. O pedido seguirá lacrado e deverá chegar aí em até 28 minutos. Caso contrário o senhor não precisará pagar nada. Quer anotar o número do pedido?

- Não. Só manda a porcaria da comida logo, por favor.

- Claro, Sr. Alexandre. O Delivery Habib's e os Amigos da Madrugada desejam a você uma excelente refeição.

- Obrigado...

- E claro, muito sucesso, não é verdade?

- Hum?

- Boa noite.

--

Eu ODEIO falar ao telefone. Pedir uma pizza para mim é um suplício. Até mesmo com os amigos e conhecidos eu sou o cara mais lacônico que conheço ao telefone. Sou daqueles que quando a namorada começa com aquela ladainha do "Desliga você primeiro?" eu respondo "Tudo bem" e desligo. Telefone pra mim é apenas uma maneira de se resolver rapidamente algo que não pode ser resolvido presencialmente por uma falta de sincronia espacial, só isso. Ficar de papinho não é comigo. Gosto de olhar meu interlocutor nos olhos. Ou no mínimo ter a capacidade de refrasear uma fala sem precisar pedir desculpas.

Mas vou te falar que este foi o telemarketing reativo mais ativo que eu já vi em toda minha vida. Esse moleque vai longe desse jeito. Nunca fui obrigado a comer tanta porcaria numa mesma noite.

Mas os brigadeiros estavam mesmo deliciosos.

PS: A imagem da gostosinha metida a Jeannie é meramente ilustrativa. Infelizmente ela não veio junto com o pedido.

17 abril 2009

Como não ser fisgado com um Phishing Scam (para leigos)

Estou para escrever isso faz algum tempo.

Como alguns que me conhecem pessoalmente já sabem, eu trabalho com informática. Analista de sistemas desenvolvedor de soluções Java. Trabalho com computadores muito antes de existir a internet (meu primeiro micro foi um TK-85 da Prológica, mas isso é outra história). Com este currículo as pessoas frequentemente vem para mim quando tem alguma dúvida a respeito dessas maquininhas tão misteriosas que tomaram nossas vidas de assalto: O famigerado computador.

Uma das questões que mais recebo é sobre e-mails estranhos. "Recebi uma mensagem XYZ com um anexo. Posso abrir?", "O orkut mandou uma mensagem engraçada. Isso é vírus?", "Meu micro está lento. Estou com vírus?"

Bom, antes de tudo não vou dar aqui uma lição sobre as diferenças entre vírus, worms ou cavalos de tróia. Quem quiser saber mais é só seguir os links acima. Para o bom leigo isso não faz a menor diferença. Eles querem seus computadores funcionando, só isso. Então, numa metáfora apropriada, não vou dar o peixe. Vou ensiná-los a pescar. Melhor ainda. Vou ensiná-los a NÃO serem pescados.

Basicamente existem 2 maneiras básicas de se proteger:

1) Mantendo o computador sempre atualizado, instalando um antivírus confiável (os gratuitos AVG e Avast! dão conta do recado) e instalar um bom firewall (por incrível que pareça, o Windows Defender mesmo já é o suficiente).

2) Usando o cérebro.

"Usando o que?!"

"Pronto, já começou o papo pretensioso...", você deve estar resmungando. Pois é. Mas é verdade. Eu já explico. Antes, deixe-me esclarecer um conceito importante ou dois.

O ato de enviar um e-mail "malicioso" (que tente enganar o usuário de alguma forma) é conhecido no meio com a alcunha de "Phishing Scam", que nada mais é que uma outra grafia para Fishing Scam, ou "Golpe da Pescaria" em tradução livre. O conceito é simples: crie uma mensagem que de alguma maneira atraia incautos a clicar em links no corpo da mensagem ou abram anexos que contenham programas que se instalarão em seu sistema e o utilizarão de alguma maneira, à revelia do usuário. É o mesmo conceito de mail marketing (ou mala direta). Envie 2 mil mensagens e pelo menos 200 trouxas vão clicar no link ou executar o anexo. O que estes programas fazem varia um pouco, mas basicamente o que vai acontecer é:

- O programa irá vasculhar sua caixa postal e roubar todos os seus contatos, alimentando a base de replicação da mensagem.

- Em seguida ele mandará uma cópia da mensagem original para todos os contatos "roubados" (seus contatos não irão desaparecer, fique tranquilo).

- Em alguns casos este programa se aproveitará de alguma falha não corrigida de seu sistema (por isso é importante manter seu computador sempre atualizado) e abrirá uma porta para que seu micro se transforme em um "zumbi", ou seja, uma máquina que, em conjunto com outras máquinas infectadas, auxiliará o criador do programa a invadir ou derrubar algum outro sistema.

"Ih, fedeu!"

O problema é que a maioria destas invasões são imperceptíveis ao usuário. Nenhum dado seu será apagado, nenhum monstrinho ficará pulando em sua tela, comendo seus ícones, nada disso. O máximo que pode acontecer é um declínio no desempenho tanto de seu computador quanto de sua conexão. Mas vale ressaltar que não é porque seu micro está lento que você foi infectado. Perda de desempenho tem dezenas de causas. Micro infectado é apenas uma delas.

Bom, como podem ver, mesmo as consequências não sendo tão nefastas quanto se pensava, é algo desagradável e que deve ser evitado. E é aí que voltamos ao assunto principal deste texto: Como usar o cérebro me ajuda a não ser infectado?

Bom, usar o cérebro é algo que deve ser feito sempre, é claro. Mas, neste caso estamos falando de um golpe, algo feito com a clara intenção de te enganar. Então, para evitar morder este anzol, algumas dicas são importantes:

1) Normalmente estas mensagens chegam com assuntos como "Veja a Fulana do BBB dando prum jumento na praia" ou "Seu CPF (ou título de eleitor, ou cadastro no SPC) foi cancelado (negativado, excluído, etc)" ou outras coisas que nós, meros cidadãos tarados e pagadores de impostos sempre nos arrepiamos só de pensar. Normalmente estas mensagens apelam pro medo, luxúria ou curiosidade. Fique esperto.

2) Desconfie de tudo. Não acredite que você ganhou numa loteria que nunca jogou. Não abra as fotos que aquela menina mandou pro namorado e "sem querer" enviou pra você. Se não contratou um detetive, então não abra as "fotos comprometedoras" de sua esposa que te enviaram. Nem acredite em promoções absurdas. Nem em garotos com câncer na Argentina. Boas fontes de referência são os sites de companhias de segurança de software ou mesmo páginas especializadas em desmistificar esses esquemas. Aqui no Brasil uma boa fonte de referência (apesar do design horroroso) é o site Quatrocantos. Antes de sair clicando inadvertidamente é sempre bom dar uma checada nesses lugares.

3) Desconfie de mensagens mal redigidas. Parece exagero, mas aparentemente estes hackers (mau uso da palavra, mas é um texto para leigos mesmo...) cabularam as aulas de português para ficarem estudando falhas de segurança na internet. Sites como Submarino, Americanas, Receita Federal, etc, possuem REDATORES e REVISORES para suas mensagens. Então uma mensagem com a frase "Clique aki e ganhe o prezente que vc sempre quiz" com certeza é golpe. Não seja idiota.

4) Perceba discrepâncias. Estas mensagens são enviadas em massa. Sendo assim seus conteúdos precisam ser o mais genéricos possível de modo a atingir a maior gama de otários possível. Pare de olhar para o próprio umbigo e perceba que aquela mensagem não foi enviada APENAS para você.

Isso cobre o básico. Então, quando receber uma mensagem suspeita não se apavore. Desconfie. Use seu poder de dedução. Não saia clicando em qualquer coisa que te mandam. MESMO se o remetente for conhecido. É simples: PENSE antes de agir. Mesmo que sua ação seja pegar o telefone e ligar pra mim e perguntar. Pense. Analise. Não é tão complicado.

Vamos a um pequeno teste?

Acabei de receber a seguinte mensagem por e-mail:

de: Ministério Público <avisoprocessual@mp.gov.br>
assunto: Comunicado importante!
Procuradoria Regional da Justiça
Coordenação de Defesa dos Interesses Difusos e Coletivos – CODIN
Procedimento investigatório n.º 40925/2008

O Ministério Público da Justiça, no desempenho de suas atribuições institucionais, com fundamento nos artigos 137 e 119, inciso VI da Constituição Federal e artigo 6º, inciso VII, da Lei Complementar n.º 175, de 20 de maio de 1993, INTIMA Vossa Senhoria a comparecer na Procuradoria Regional do Trabalho, no dia 13 de abril (segunda feira) de 2009, às 10:30 horas, a fim de participar de audiência administrativa, relativa ao procedimento investigatório em epígrafe, em tramitação nesta Regional, conforme despacho em anexo abaixo.

Anexo Despacho.doc

SAF Sul Quadra 4 Conjunto C - Brasília / DF - CEP 70050-900 - PABX: (61) 3031-5100

E aí? Essa é dureza, né? Devo clicar no link ou não? Vamos seguir o pequeno manual que redigi acima:

1) Assunto Urgente: É uma mensagem do Ministério Público, a respeito de uma intimação para a participação em um procedimento investigatório. Quem foi investigado? Eu? Algum conhecido? É algo a se prestar atenção.

2) Golpe Conhecido: Uma visita rápida ao Quatrocantos (em páginas estrangeiras com certeza não apareceriam) não mostra nenhum tipo de golpe com este teor. Então se for golpe é coisa recente. Ou será que é verdade?

3) Péssima Redação: Nenhum erro grotesco no conteúdo da mensagem. Um texto bem redigido, bem formatado. Parece autêntico. Estou quase clicando!

4) Discrepâncias: O fato de meu nome não ter sido citado uma vez sequer na mensagem inteira já é motivo de desconfiança. Claro, pode ser uma daquelas mensagens instantâneas, geradas e enviadas automaticamente. Estranho seria usarem algo tão impessoal para um assunto tão pessoal, mas isso não é tão grave. Pode ser um novo procedimento, não é?

Muito bem, a mensagem passou em todos os passos de meu pequeno manual básico de segurança, não passou? Raspando, mas passou. Então, é seguro clicar no link?

CLARO QUE NÃO, SEU IDIOTA! NÃO LEU NADA ATÉ AQUI?

Pense! Analise! Não se prenda a manuais ou soluções mastigadas. Use sua capacidade de investigação básica. Como eu disse, DESCONFIE SEMPRE. Esta mensagem é claramente um Phishing Scam. E eu explico porque:

1) O endereço de envio da mensagem já é meio estranho: avisoprocessual@mp.gov.br. Não o prefixo (antes do arroba), mas o domínio. Existem diversas instituições denominadas "Ministério Público". Uma para cada estado, especificamente. O endereço do de São Paulo é http://www.mp.sp.gov.br. Há o Ministério Público Federal (http://mpf.gov.br) e o da União (http://mpu.gov.br). Tente acessar o endereço http://mp.gov.br. Eu espero. Nada, né? Pois é, nesse angu tem caroço...

2) Recebi a mensagem no dia 16/4. A mensagem diz que preciso comparecer no dia 13/4. Mesmo levando em conta a incrível capacidade do poder judiciário em atrasar tudo, duvido que enviassem uma mensagem me convocando numa data ANTERIOR a seu recebimento.

3) O link aponta para um endereço totalmente diferente de qualquer outro que referencie a algum Ministério Público (não vou colocar o endereço aqui). Nem mesmo ao tal mp.gov.br (que, como já comprovado, nem existe). Ou seja, é apenas uma página que hospeda um arquivo malicioso (ou um "vírus", pra facilitar o entendimento).

Pronto. Caso receba essa mensagem denuncie como spam e apague-a. Sem dó. É um Phishing Scam. Não seja fisgado. Não seja um cabeça de bagre. De novo: PENSE. Se eu fiz isso você também pode fazer.
Perceba que não usei nenhum conhecimento técnico avançado para esta análise.

Chega de alimentarmos essa prática tão chata. Pensar não dói.

Pensa nisso.

12 abril 2009

The Countess - Julie Delpy como Bathory nos cinemas

Na carta de apresentação que redigi para as editoras quando tentava publicar "O Legado de Bathory" escrevi:

"Recentemente, foi anunciada a produção de um longa-metragem contando sua história, protagonizada por Julie Delpy e Ethan Hawke. A previsão de lançamento é para meados de 2007."
Pois bem, alguns anos se passaram, o livro foi lançado no final de 2007 e nenhuma notícia desta produção surgiu. Cheguei a pensar que o filme havia sido até cancelado. Acontece, especialmente sendo um tema considerado pouco digerível pelo público médio E sendo o filme de estreia da bela francesa na direção. Daí encontro, por acaso no blog Rosebud é o trenó, uma notícia que linka ao trailer da produção, agora nomeado simplesmente "The Countess" e sem a presença de Ethan Hawke (mas com a adição de William Hurt no papel de Gyorgy Thurzo). Comentários meus após a visualização do trailer.



E aí? Gostou? Eu não sei. Quando li as primeiras entrevistas de Delpy a respeito da produção eu tive alguma esperança. Ela pretendia fazer algo mais calcado na realidade, deixando de lado (ou explicando melhor) grande parte dos mitos que envolviam a condessa. Mas ao ver a famigerada "cena do toucador" (quando o mito diz que Bathory descobriu os poderes curativos do sangue de virgens) dei uma broxada. Quem leu meu livro (e especialmente a nota histórica ao final) sabe que esta cena é comprovadamente fictícia, tendo sido criada bem posteriormente em romances e transformadas em "verdade" pelo boca a boca. Não sei. Além disso tentar racionalizar os crimes criando uma história de amor com um homem mais jovem (e a partir disso explicar a obsessão pela juventude eterna) é uma estratégia barata que o cinemão adora fazer. Não assisti o filme ainda, vou fazer, mas minha expectativa caiu bastante.

Aproveitando o tema, em 2008 o cultuado diretor tcheco Juraj Jurabisko produziu uma cinebiografia da condessa que foi lançado apenas em alguns festivais pelo leste europeu (mesmo o filme sendo estrelado por Anna Friel (a simpática Chuck do razoável Pushing Daisies) e falado completamente em inglês). Parece uma produção muito mais séria e bem menos poeticamente licenciada (!). O trailer é esse aí embaixo. Também não vi e não encontrei em lugar algum. Caso alguém saiba onde encontrar, me avise.


01 abril 2009

Identidade nos Tempos de Twitter


– Você entrou no Twitter, pai?

Tentou decifrar a linguagem em código da filha. Não queria parecer antiquado como seu próprio pai, mas estava cada dia mais difícil. Calma. Ganha tempo. Finge que estava distraído.

– Entrou no que, minha filha?

– No Twitter. Não me enrola.

– Do que você está falando?

– Mãe! O pai tá fazendo aquilo de novo!

– Deixa ele, minha filha...

– Que papo é esse? Encontrou alguma coisa minha aí no teu notebook?

Péssima estratégia. Tinha sido só uma vez. E nem tinha achado bom. Tanta janela aberta o fazia sentir meio exposto. E tinha apagado o histórico, não tinha? Não faz cara de preocupado.

– Vai me dizer agora na minha cara que @RonaldoSiqueira não é você?

– Depois do arroba meu nome é esse mesmo.

– Eu sabia! Ah, eu não acredito!

Passos pesados e o estrondo de uma porta batendo encerraram a conversa.

@

– Ela está brava comigo ainda?

– Também não é pra menos, né Ronaldo? Que absurdo!

– Ah, nem começa. Foi só uma vez. Fui abrir o anexo de um e-mail do Marco e tudo começou sem que eu pudesse evitar. E eu tentei! Mas foi uma confusão tão... Que eu...

– Do que você está falando?

– Nada. Que foi que eu fiz que eu nem sei?

– Olha, pode brincar com o Twitter à vontade. Não é esse o problema. Mas não precisa seguir a menina, precisa? Deixa ela em paz.

– Seguir? Mas eu não sigo ninguém!

– Estava seguindo quarenta e cinco ontem de noite que eu vi. Sua filha inclusive.

– Quarenta e...

– Francamente, Ronaldo!

@

Levou algum tempo até que ele compreendesse tudo aquilo. Mal tinha acabado de decifrar o conceito de comprar um livro numa página de internet e foi apresentado ao universo do microblogging, dos cento e quarenta caracteres, de falar com ninguém e ao mesmo tempo com todo mundo, essas coisas. Achou uma tremenda bobagem. O que ele iria contar de interessante?


07:12 Cheguei atrasado. De novo. Espero que meu chefe não repare.

07:14 @Chefe Bom dia para o senhor também.

11:55 Cinco minutos para o almoço. Espero que tenha tiramissu hoje.

13:47 Não tinha. Comi torta holandesa. Muita manteiga. Quase duas horas de almoço mas valeu a pena #siesta

13:48 @Chefe Também acho. Com certeza. Não vai se repetir.

E por aí vai. Quem se interessaria por isso? Ele tinha mais o que fazer do que ficar narrando a própria vida.

Ou não tinha?

@

E quem era esse outro Ronaldo Siqueira? Um homônimo? Muito provável. O fato deste outro ter começado a seguir sua filha podia ser apenas uma coincidência. Uma coincidência estranha, mas apenas isso. Não era?

Começou a acompanhá-lo. O cara parecia legal. Tinha uma vida agitada. Fazia piadas o tempo todo. Sempre espirituosas e engraçadas. Mandava links interessantes. Entrava em sua página sempre após o almoço, quando se lembrava. Quando faltava algum dia tentava ver o que tinha perdido, mas era impossível. O cara tinha tanto assunto! Diversificava tópicos, fazia citações, entrava em debates acalorados. Era esperto. Havia conseguido mais amigos em uma semana do que o original durante a vida inteira. Tudo isso sem mostrar ao menos o rosto. A foto em seu perfil era tirada de um desenho animado qualquer. Mas até esse desenho era legal.

– Que filho da mãe!

@

Abriu a página do seu outro antes mesmo de abrir o e-mail. Queria saber o que tinha rolado na festa de ontem. Coisa de agência de publicidade, pelo que ele havia dito ontem no final da tarde. Várias gatinhas. Open bar. Com menos de cento e quarenta caracteres ele havia descrito a festa tão bem que dava pra imaginá-la em detalhes.

07:02 Alguém tem um tylenol? #Ressaca

Onde será que ele estava? Será que já estava no trabalho? Ou mandou a mensagem de casa? Ou da casa de alguém? Imaginou-o alcançando o celular de última geração em cima do criado mudo do quarto de motel e enviando a mensagem enquanto a garota tomava um banho. Muito melhor que numa baia apertada com a cara amassada de sono e a boca com gosto de café instantâneo. É isso aí, Ronaldo!

@

– Paiê! Mamãe mandou você largar o Twitter e vir jantar que já tá esfriando...

– Já vou, filho. Só um instantinho.

21:36 Acho que levei um bolo...

Não, cara, não desiste ainda. Você investiu tanto. Essa tá no papo. Ela atrasou só o que? Meia hora? Calma.

21:42 All by myself...

Paciência, cara. Não se desespera. Você acha que alguém com um nome como @FelinaFogosa ia resistir a seu charme? Tenha um pouco mais de auto confiança. Daqui a pouco ela aparece.

21:45 Opa, o interfone. Depois eu conto como foi. BRB.

– PAI!

– Tô indo, tô indo...

@

O vício cresceu tão rapidamente quanto sua produtividade caiu. Pra que se importar com contabilidade se ele podia estar bolando uma campanha revolucionária para um sabão em pó? Que interessava o resultado do jogo do Palmeiras? Ele era corintiano. Ou era palmeirense? Não, ele era palmeirense. E ele era corintiano. Péra, me perdi.

Ele tinha trocado de carro. Tinha se mudado recentemente. Solteiro convicto. Órfão de pai. Antenado. Falava de tecnologia com naturalidade. Era chamado para festas. Escrevia numa página sobre Design. Tocava violão. Fumava. Bebia sem medo do dia seguinte. Vivia com tamanha intensidade que fazia questão de compartilhar tudo com todos. E tinha certeza de uma coisa:

Todos o invejavam.

@

– Pai, que roupa é essa? E esse óculos?

– Não gostou? É o que tá se usado, não é?

– Até é, pai, mas sei lá... Em você ficou estranho.

– Ah, você tá por fora.

– Mãe?

– Não começa, Ronaldo.

@

– Pai, você levou o notebook pro banheiro?

– É só um instante, filha.

– Ai, que nojo! O que você está fazendo?

– Estou esperando o garçom trazer minha tequila pra brindar com a galera mais um cliente.

– Hã?

@

Em pouco tempo o diálogo ficou impossível. A esposa pensou em levá-lo a um psiquiatra. Já não tinha mais controle sobre o vício. E aquelas histórias todas? Quem ele achava que era?

@

A tela apagou. De repente. Ele gritou.

– Xi, acabou a luz.

– Bem na hora da minha novela?

– Que aconteceu?

– Acabou a luz...

– Ah não, justo agora?

– Que foi? Estava fazendo alguma coisa importante?

– Uma conferência sobre redes sociais em São Francisco. Estava quase na hora do coquetel de encerramento.

– Ai, meu Deus...

– Teu notebook tem bateria, não tem? Empresta ele pra mim, por favor?

– Que adianta, pai? Sem luz não tem internet. Calma, daqui a pouco volta.

– Daqui a pouco quando?

– Sei lá, ô! Saco! Vou pro meu quarto.

– Ronaldo...

– Não. É sério. Acabou a luz só aqui ou foi no prédio? Tem alguma LAN House aqui perto?

– Uma o que? Você está maluco? Senta. Se acalma. Cuidado com a mesa! Meu Deus Ronaldo, o que você está fazendo?

Ele a olhou como se não a reconhecesse.

– Eu... Eu não sei. Depois eu te digo. BRB.

– Bê erre... O que você está falando?

Mas a luz voltou.

24 março 2009

Trailer de "Predadores" indicado no BiblioFilmes Festival

Você já leu meu lívro mais recente, "Predadores"? Não? E o trailer, já viu? Também não?! Então não perca mais tempo e veja:



Gostou? Então, além de comprar o livro, que tal me ajudar a divulgar meu trabalho nas terras detrás dos montes? É isso aí. O vídeo acima foi indicado para participar da mostra competitiva do BiblioFilmes Festival em Portugal, na categoria Melhor Trailer de Escritor. A votação é feita por um júri especializado, mas há também a modalidade de júri popular. E é aí que você entra. Clique aqui e veja os indicados. Depois clique aqui e vote no seu preferido (Predadores, claro).

Conto com vocês!

11 março 2009

It's only roquenrou, beibe

Sempre fui um músico frustrado. Assumo. Toda vez que vejo alguém tirando uma música de ouvido ou mesmo simplesmente TOCANDO um instrumento de maneira competente me remoo de inveja. Sempre adorei música. E quem nunca fantasiou em se tornar um autêntico rock star?

Minha empreitada neste mundo já começou com um balde de água fria. Impelido pelo fato de meu pai possuir um violão (que era de meu avô, um Giannini velhão) decidi tentar aprender. Entrei numa aula e, depois de alguns meses, o próprio professor desistiu. "Cara, violão não é tua praia", lembro dele me dizendo.

Oh, a frustração! Eu não seria um autêntico Guitar Hero (não, nada a ver com aquele videogame chato pra cacete) que seduziria multidões com seus acordes distorcidos e sua pose de "foda-se o mundo!". Porcaria, porcaria! Nem ao menos seduzir menininhas em luaus e saraus eu conseguiria.

Decidido a não desistir depois do primeiro tapa na cara entrei numa aula de piano. Eu era beeeem moleque, aula particular, na casa de uma vizinha, uma velhinha japonesa super dócil, bem clichê mesmo. Com ela aprendi a ler partituras e até mesmo a tocar músicas simples em seu velho piano-armário ("Meu limão, meu limoeiro", "Oh, Suzana", "Ode to Joy", essas coisas). Não lembro bem por que parei com as aulas. Talvez por minha incapacidade de evoluir. Ou porque a velha morreu. Eu REALMENTE não lembro.

Quando a adolescência chegou aquele antigo desejo ressurgiu. Decidi me tornar um tecladista de uma banda. Tá, não é tão glamuroso quanto um guitarrista, mas dava pro gasto. E eu já sabia o básico. Decidi entrar numa aula de teclado popular. E eu consegui uma professora que era simplesmente DELICIOSA. Eu tinha 16 ou 17 anos, não me recordo bem, e ela estudava medicina na USP e dava aulas para complementar o orçamento. Era maravilhoso encontrá-la todas as tardes de sábado, nem que fosse para levar broncas por minha incapacidade de ensaiar durante a semana ou mesmo para ser humilhado vendo-a tocar magnificamente com seus dedinhos que deviam ser da metade do tamanho dos meus. Eu ficava fascinado como suas mãos passeavam agilmente pelas teclas, quase se tornando um borrão indistinto, arrancando músicas complexas de seu instrumento.

Talvez o incentivo hormonal me fez me esforçar mais que o habitual e eventualmente eu acabei pegando o jeito da coisa. As músicas começaram a sair, em arranjos cada vez mais complicados e interessantes. A recompensa vinha no sorriso e nos abraços de aprovação de minha querida professorinha. Depois de alguns meses ela me colocou como destaque na audição de final do ano de seus alunos. Eu tocaria três músicas, sendo o ponto culminante uma versão com DOIS teclados de uma das músicas mais clássicas do rock-farofa: The Final Countdown, do Europe.

Cara, como eu ensaiei aquela porra. Eram horas e horas todos os dias (saudades dos tempos que meus dias tinham "horas e horas" livres...). Aperfeiçoei os arranjos, trocava mãos, vozes, ritmos. Tudo para arrebentar na apresentação final. Não só para agradar a deliciosa professora, mas também para provar de uma vez por todas que eu podia fazer aquilo.

E eu fiz.

Mesmo contando com uma intervenção ciumenta do namorado da professorinha, que sabotou o equipamento bem na hora de minha apresentação (não tiro sua razão, mas questiono seus métodos), eu detonei. Fui aplaudido de pé pela pequena platéia. E eu sei que realmente mereci cada um daqueles aplausos, tamanho o esforço ao qual me dediquei nos meses anteriores. Há um registro em VHS feito por meu pai do momento. Assim que eu lembrar de digitalizar a fita prometo que coloco por aqui para provar (Pai, tem jeito?).

Tá, essa historinha longa na verdade está aqui apenas para que vocês compreendam a minha revolta com o vídeo abaixo, que encontrei no blog do Bugz. Eu... não tenho palavras para descrever isso. Sério. Assistam e compreendam:



O que dizer disso?

Bom, após aquela minha apresentação eu toquei ainda um pouco com uma banda de amigos e em seguida a vida veio e colocou a música em décimo quinto plano em minha lista de prioridades. Apenas recentemente ando ensaiando uma volta, tocando com outros amigos em uma jam session semanal onde tiramos essencialmente blues. Está bastante difícil desenferrujar (apesar de eu saber "The Final Countdown" de cor até hoje, para tristeza de todos) mas ao menos sei que nunca tocarei tão terrivelmente quanto esses moleques aqui:



Tristeza, né? Mas respeito quem tem o culhão de subir num palco e destruir uma música desta maneira (mesmo uma música originalmente destruída como essa). Na verdade compreendo. O amor à música as vezes é muito maior que nossa capacidade de tocá-las.

E esse é o espírito do verdadeiro Rock'n'Roll.